O odor de naftalina inundava o quarto, vinha dos armários de madeira detrás da porta e de dentro da penteadeira, que há muito tempo não arejavam devidamente. Dos lençóis amassados e revirados na cama, subia o cheiro de sexo e suor, que ajudavam a compor no cômodo uma atmosfera sufocante, mas que já não incomodava Ana.
Ela se via através do espelho que ficava de pé ao lado da janela; esparramada na cama, nua, com a luz do criado mudo direto na sua cara, o que a impedia de ver Bruno corretamente. Ele, sem roupa, sentado no parapeito da janela do sobrado, olhava as luzes dos carros lá fora enquanto acendia um cigarro:
_Você sabe que tudo que a gente tinha, acabou, né? Só sobrou esse sexo sujo que você faz tanta questão de tempos em tempos.
_Eu sei, e não ligo. Só quero o sexo, e que se foda o resto. Enquanto você me fizer gozar, eu ainda vou estar aqui.
_Porra, Ana, não podia ser mais perfeito. Enquanto eu puder te comer sem ter que olhar pra tua cara no dia seguinte, é o que eu vou fazer. E olha, eu garanto, sei que ninguém faz isso contigo melhor do que eu.
_É Bruno, te digo o mesmo. Sei que a maldita da tua namorada não te faz gozar, e nunca vai conseguir. Aí você corre pra mim desesperado pra dar uma trepada e aliviar a dor de cabeça que a vagabunda te traz..
Bruno ainda olhava pra fora, e tragava seu cigarro lentamente, filtrando as palavras de Ana, e deixando o fumo lhe inebriar. Observava como a vida longe daquele cômodo parecia agitada e cansativa, e sentia certa rejeição à idéia de ter que sair dali a pouco tempo, pra voltar à sua rotina.
Ana se admirava no espelho.. fazia mil caras e bocas pro seu reflexo, brincando com o chapéu-coco de Bruno, que estava em cima da cama.. deu uma risada contida, de si mesma.
Ele voltou sua atenção à ela, que ainda estava deitada e com o chapéu na mão.
_O que é que tá rindo?
_Nada não, besteira.. - e deu um sorriso sem graça mexendo no lençol da cama.
Bruno ficou observando-a, e pensando no quão pouco ela tinha mudado com o tempo.. As mesmas manias, trejeitos, o mesmo sorriso embaraçado e os mesmos olhos desconfiados olhando por detrás da franja. O mesmo tique de morder o lábio quando transava e a mesma ânsia de liberdade. A única coisa que parecia ser diferente daqueles tempos pra lá, eram algumas tatuagens a mais, o cabelo que tinha crescido até a cintura, e a vontade de ter um filho. De resto, podia-se jurar que os anos não tinham passado pra ela.
_Pára de me olhar. - disse Ana. - Já me comeu, agora quer ficar olhando pra que? Pra poder bater uma punheta mais tarde?
_Não, sua idiota. Até porque eu sei que se eu quiser te comer mais tarde de novo, você vai vir correndo.. E eu não preciso ficar batendo pensando em você, eu tenho a outra pra isso.
_Affe, Bruno. Vai se foder..
Ana olhou pro relógio de parede e constatou que já eram dez pras onze da noite, e que Bruno teria que sair logo, pra voltar pra casa. Pegou o chapéu-coco e o olhou profundamente, velho conhecido seu, desde que saiu com Bruno pela primeira vez. Arremessou o chapéu na direção dele, e apontou pro horário.
_É.. acho que você já tem que voltar. Termina a porra do cigarro e se troca..
_Aham, estou indo.
Ele começou a colocar as calças lentamente, vendo Ana de canto de olho. Ela estava sentada na beira da cama e olhava fixamente pro chão, pras suas unhas do pé que descascavam um esmalte preto, e pra calcinha largada na porta do banheiro. Ela não tinha o porque de ter pressa, morava ali sozinha, e só teria que acordar no outro dia às oito da manhã; trabalhava num estúdio perto de casa, pintando quadros sob encomenda, retratos de famílias e qualquer outra coisa pela qual lhe pagassem bem. Não tirava muito dinheiro, mas era o suficiente pra se manter.
_Bruno, - disse ela, ainda estática e olhando pro chão - não esquece de pegar teu whisky, que tá aqui em cima do criado mudo.
_Pode ficar com ele aí, da próxima vez que eu vier te comer, a gente toma.
Ela olhou pra ele com cara de asco e deitou na cama.
_Quando sair, apaga a luz.
Bruno pegou o chapéu-coco e suas chaves, fechou a janela do quarto e saiu calmamente dali, apagou a luz e fechou a porta com um estampido, que assustou Ana. Ela pegou um dos travesseiros e o abraçou, enquanto tentava dormir.. Percebeu que essa seria mais uma das longas noites em que seus problemas de insônia não lhe dariam paz. Pegou a garrafa de whisky e deu seis longos goles direto do gargalo, se masturbou, e com um gemido, pegou finalmente no sono.
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